Cabeça limpa

Eu tenho vários amigos homens. Vários mesmo, uns 20. E o que acontece quando você tem amigos homens? Invariavelmente surge uma conversa sobre pinto. Pau. Pipi. Piroca. Rola. Qualquer apelido da genitália masculina que você queira utilizar. Acho que uma das principais lições que eu tiro dessas conversas – e da minha observação empírica – é que homens nunca, jamais, enxugam ou limpam o pinto depois de mijar. “A gente sacode”, dizem os rapazes, mas eu não caio nessa não – por acaso homens aspiram todo o xixi que fica na na cabeça “deles”? Acho que não. Acho que isso é balela de preguiçoso. Vejam, nem estou chamando de porquice (por mais que minha obsessão por sabonetes me obrigue, internamente), mas de preguiça mesmo, porque sei que nenhum deles foi educado para passar um papelzinho na cabeça do pênis depois de urinar – e acham esse “esforço” desnecessário.

Corta pro sexo oral.

Nas mais diversas combinações de relações sexuais, o sexo oral é pode ser praticado (parecendo um documentário do Discovery Channel? Talvez). No caso das relações sexuais heterossexuais e bi\homossexuais masculinas isso deveveria envolver duas coisas: primeiro, e acima de tudo, consentimento; segundo, higiene. Se o cara que você está chupando não limpou o pênis dele e quer que você o chupe ele está sendo, no mínimo, porco. Imagina só você engolindo o resto de urina que tem na cabeça do “dito cujo”? ARRE. Transar “no pelo” com um cara pouco limpinho, se você é mulher, pode significar, inclusive, infecções urinárias recorrentes.

Mas o principal problema não é esse. Discutindo sexo oral com um amigo militante LGBT chegamos no assunto “chuca” – aquela limpeza profunda anal que praticantes de sexo anal costumam fazer -, que ele criticava ferozmente. Ele dizia que a imposição de uma higiene restritiva no sexo criava uma hierarquia de classe nas relações sexuais, já que produtos de higiene pessoal podem ser muito caros. Isso também faz com que se alimente uma indústria da higiene anal, inibindo sexualmente determinados setores sociais.

Bom, quem é mulher não viu nada de novo, não é mesmo? Quantas de nós não realizamos rituais diários de “limpeza” antes (e muitas vezes somente antes) de transar? Quanto do que cremos ser saúde e higiene não se baseia em mera estética para o prazer masculino? Ou seja, o cerne da questão não está num debate entre higiene x nojeira, mas sim no fato de que a cobrança masculina para com a higiene feminina é infinitamente maior do que o inverso dessa relação! Estamos frequentemente controlando nossos pelos, odores, texturas e aparências – não apenas de nossa genitália, mas do corpo todo – para que o homem possa sentir vontade de nós, quando o contrário frequentemente não é recíproco (ou vocês vão falar que É COMUM que as mulheres reclamem que o parceiro não raspou todo e qualquer pelo pubiano?).

Não estou aqui entrando no mérito de que homens não sentem pressão para manterem-se esteticamente aprazíveis para as mulheres. De fato essa força existe, mas é leviano querer afirmar que ela é tão prejudicial quanto o é à mulher. Esse texto  da Business Insider mostra um estudo comparativo referente a preços de produtos de  voltados para homens e mulheres nos EUA, em sua maioria produtos de higiene. O texto admite existir uma “taxa rosa” pelos produtos femininos, que são mais caros que os masculinos, não obstante à qualidade similar ou inferior. Os dados apontam que mulheres gastam quase $1,4 ao ano a mais do que os homens – apenas por serem mulheres. Vamos lembrar que, apesar disso nós recebemos quase 30% a menos do que os homens?

Desse modo, mulheres não só se preocupam mais com a prórpia higiene (principalmente a íntima) e desenvolvem distúrbios relacionados à imagem corporal (transtornos alimentares, dismorfia corporal, TOC, etc), como também precisam pagar mais caro por isso. Acho que não tem como deixar mais claro o quão injusta é a relação existente entre os corpos masculinos e femininos: simplesmente não existe aberura para o relaxo das meninas com relação à higiene, pois “não há desculpas para tanto”. A altíssima disponibilidade de artigos estéticos e afins para nós étão sufocante que a preguiçosa somos nós que não fazemos a sobrancelha, que não raspamos a virilha, que não utilizamos desodorante vaginal, e não o cara que é incapaz de passar um papel no próprio genital depois de urinar.

Ou seja, seria muito bom se os caras colocassem a mãozinha na consciência – e no papel higiênico – ao invés de ter nojinho de uma buceta que não seja de silicone.